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As Sobremesas… Mesas…

11 mai

Doces Mineiros (Foto: Reprodução)

                                      As Sobremesas… Mesas…

                                                      Carlos Drummond de Andrade
                                                      A Bolsa e a Vida, Rio de Janeiro, 1962.

Entre o sal e o açúcar, sempre optara por este, de sorte que o jantar
consistia, no caso particular deste escriba, numa preparação do doce. Também simples os doces, mas deles se poderá dizer, sem ênfase rememorativa, que nunca mais serão provados com a mesma pasta e sabor,
feitos que eram segundo velhas receitas de família, avaramente guardadas
até mesmo de primas e cunhadas, a quem se queria cativar com a
oferta de tabuleiros repletos de coisas pecadoramente gostosas,
mas a quem se negava o “segredo”.
Pondo de lado o rotineiro queijo frito com açúcar, um respeitável pudim, com seu fino lençol açucarado sobre a camada superior, assumia posição de destaque entre as demais peças. Não era pudim disso ou daquilo, com elementos discriminatórios; era simplesmente pudim, massa consistente, túrgida, enriquecida por estilhas de cidra e laranja encravadas aqui e ali. (Variante e menos prestigiosa, com qualquer coisa de protestante, e pudim de queijo). Em redor, agrupavam-se o prato de pastéis de nata, puro céu; o de “canudos”, compridos e repletos de doce de leite, e obturados por uma camada de fios de ovos; as compoteiras de cristal facetado, azul e verde, guardando os doces secos e os doces em calda (outra vez cidra e laranja, e mais figo, mamão, pêssego). A fila de compoteiras, na copa, valia por si só um poema; até vazias eram bonitas e boas de se ver, pelo que evocavam, não falando na sedução das cores. Geléia preta e trêmula, ou branca e betuminosa, de mocotó, faziam-se apreciar devidamente.
Mas a sobremesa imprevista… fica para o fim.

País do Açúcar

12 mar

Compoteira (Foto: Reprodução)

“Começar pelo canudo,
passar ao branco pastel
de nata, doçura em prata,
e terminar no pudim?
Pois sim.
E o que bóia na esmeralda
da compoteira:
molengos figos em calda,
e o que é cristal em laranja,
pêssego, cidra vidrados?
A gula, faz tanto tempo,
cristalizada.”

Carlos Drummond de Andrade

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